Abril tem sido um mês mais devagar no que se refere à escrita aqui na newsletter. Reitero meu objetivo para 2026: escrever todos os dias tanto para publicar no blog quanto para publicar aqui na news. Noto que essa “falta” de escrita se estende também para o diário. Decidi usar uma capa de couro com sistema de elásticos, conhecido como Midori ou Travelers Notebook, para este mês. Na verdade, o sistema deu muito certo e pretendo levar ele até a vontade de mudar se instalar, o que será em breve já que comprei uma capa para caderno A5. Outra coisa que fiz foi separar o diário da agenda. Acho que comentei aqui ou no blog, ou talvez tenha sido na minha dissertação, que em portugues não temos uma palavra para o journal. Em inglês temos Diary e Journal. Mas acabou de me ocorrer que o diary do ingles é a nossa agenda diária e o Journal, o que chamamos aqui de diário (diário íntimo, pessoal). Assim, em abril, pratiquei mais a agenda do que o diário. Nos últimos dias, nem isso.
Na capa que estou usando, coloquei 03 cadernos:
um para anotações gerais, listas, etc;
um que é a agenda - tem uma visão semanal vertical que uso para registrar compromissos, tarefas do dia, e a agenda diária, uma página por dia.
o último caderno, uma visão do mês em 02 páginas, funciona como planner e também registro de memórias.
Neste último caderno, adicionei um sistema de cores para melhor visualização. As categorias que estou usando, são:
azul - feriados e datas comemorativas;
laranja - coisas do mestrado
rosa - lazer
E aqui já posso dar um exemplo do que está acontecendo: cheguei num ponto deste texto que não consigo mais arrancar palavras para continuá-lo. Lembro, inclusive, que meus últimos textos tem sido mais curtos.
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| Agenda diária |
O curioso é que, mesmo quando não escrevo no diário, esse caderno continua sendo preenchido. Não com textos longos, nem com reflexões, mas com marcas mínimas do que aconteceu ou do que precisa acontecer. Como se, na ausência da vontade de escrever, restasse ainda uma necessidade de organizar o tempo.
Talvez seja isso que tenha acontecido em abril: não deixei de escrever completamente, mas mudei o tipo de escrita. Saí de uma escrita mais contínua, mais reflexiva, para uma escrita fragmentada, quase funcional. Uma escrita que não se demora, que não se desenvolve, mas que ainda assim registra.
E então me pergunto se essa “falta” de escrita é, de fato, uma ausência ou apenas uma mudança na forma de registrar o dia, os pensamentos, as ideias. Porque escrever no diário exige uma espécie de disposição que não é sempre acessível. Já a agenda, mesmo quando falha, parece exigir menos: ela aceita o mínimo, o registro rápido, a anotação quase automática. Mas, nos últimos dias, nem isso.
Um exemplo é a entrada do dia 15, que foi o dia do show da banda Guns'n Roses aqui em Salvador. Levei uma mochila pequena com um caderninho de bolso (não consigo sair sem um caderno e uma caneta ou lápis para escrever). Mas acabei fazendo alguns registros em tópicos no Google Keep mesmo, com a ideia de transcrever essas anotações para os devidos cadernos. Também pretendia escrever sobre como me senti, como foi a experiência. Não registrei porque os dias foram corridos, exigindo muito de mim emocionalmente. Eu estava vivendo no modo sobrevivência. Spoiler: no sábado fiquei de cama, completamente destruída.
Resultado foi que apenas registrei coisas na agenda, mas não escrevi sobre a experiência. Ainda quero escrever, mas, talvez, esse registro já não seja o real. Porque escrever no diário, pelo menos para mim, não é apenas registrar o que aconteceu. É uma tentativa de permanecer um pouco mais no que foi vivido. Quando isso não acontece, o dia parece passar mais rápido, ou talvez passe do mesmo jeito, mas sem deixar marcas tão visíveis.
A agenda, por outro lado, funciona quase como um esqueleto do dia. Eu uso o método bullet journal para fazer a agenda. Registro horários, tarefas, compromissos e até mesmo ideias, pensamentos, experiências e tópicos que posso desenvolver depois. Ou seja, mesmo quando falha, ainda aponta para uma organização possível. Mas ela (a agenda) não dá conta de tudo. E talvez seja justamente isso que tenha faltado em abril: não foi falta de tempo ou disciplina, mas essa indisposição para lidar com o que não é imediatamente funcional. O resultado é um registro de fragmentos do vivido.
Ainda assim, olhando para os cadernos deste mês, percebo que algo permaneceu. Mesmo que de forma reduzida, fragmentada, quase silenciosa, há ali um rastro. Pequenos sinais de passagem: uma tarefa anotada, um compromisso cumprido ou cancelado (sim, eu deixo os cancelamnetos registrados), uma cor que indica que algo aconteceu.
Talvez o diário também seja isso; não apenas os momentos em que conseguimos escrever, mas também os períodos em que não conseguimos. As falhas, as pausas, os intervalos. Um arquivo que não se constrói só pelo que é dito, mas também pelo que fica suspenso.
Abril foi, nesse sentido, um mês mais leve de escrita, mas não necessariamente vazio. Apenas diferente. Um mês em que escrevi menos com palavras e mais com marcas dispersas, com organização, com tentativas de manter algum tipo de continuidade.
E talvez seja importante reconhecer isso: que a escrita não desaparece completamente, mas muda de forma. E que, mesmo quando não há vontade de escrever, algo ainda insiste em ser registrado ( ainda que de maneira quase imperceptível).





