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[Dia 16 desafio 30 dias de escrita] Como escrever um diário como Virginia Woolf

Quem foi Virginia Woolf

Virginia Woolf manteve um diário ao longo de 44 dos seus 59 anos de vida. Ela foi encontrando uma forma para seu diário. Não é apenas um diário íntimo de uma mulher inglesa do início do século XX. Woolf é uma das escritoras do século XX. Viveu as duas grandes guerras mundiais. Escreveu ficção, ensaios, crítica literária e contos. Era integrante do Bloomsbury Group, um ciclo de intelectuais que contestavam as tradições literárias, políticas e sociais da Era Vitoriana. Woolf, assim como James Joyce e William Faulkner, é considerada uma das criadoras do fluxo de consciência, técnica narrativa que tenta representar o fluxo não linear do pensamento.

virginia woolf
Virginia Woolf

Rotina de escrita de Virginia Woolf

A rotina escrita de Virginia Woolf era mais ou menos a seguinte:

  • 09:30 às 12h - escrita: ficção ou resenhas;

  • Almoço;

  • Revisão;

  • Caminhada;

  • 15 às 18h - Hora do chá;

  • Escrita: diário e/ou cartas;

  • Leitura, visitas.

Como escrever um diário como Virginia Woolf

Abaixo, apresento alguns pontos com os quais você pode se inspirar para iniciar ou incrementar sua prática diarística a partir da prática de Virginia Woolf.


  1. Muita repetição e zero expectativas

Um diário é composto de muita repetição, a menos que você tenha uma vida bem movimentada, sem rotina.  Além disso, você deve ter em mente que não está escrevendo um livro de ficção ou escrevendo para que outras pessoas leiam, embora, caso você queira, pode publicar, mas neste caso, ainda há um processo de edição. Um diário não é publicado exatamente como ele foi escrito (assunto para outro texto).

No começo é mais difícil escrever todos os dias, mas se você quer escrever um diário, seja lá por qual motivo, deve se obrigar a sentar e escrever todos os dias. Mesmo que seja uma frase, um parágrafo. Eu fazia a mesma coisa quando estava criando o hábito de ler. Lia nem que fosse uma frase. Depois que ler se tornou um hábito como escovar dentes, o processo acontece de forma natural.

Com o diário, sinto que quanto mais escrevo, mais quero escrever.

  1. Arquivo

Penso no diário como um arquivo. Embora haja repetições nos registros, também há entradas que no futuro podem ter conteúdo histórico. Vou dar um exemplo bem sem importância para muitas pessoas, mas importante para mim. Em abril, a banda Guns'n Roses vai tocar em Salvador. Isso é um acontecimento histórico e, com certeza, será registrado no meu diário. Outros assuntos históricos que a gente registra no diário: catástrofes, eleições, o carnaval de 2026, etc.

Além desse tipo de conteúdo, você pode escrever sobre o que fez, quer fazer, o que não fez. Com quem conversou, sobre o tema da conversa. Registre suas leituras, filmes e séries, quais músicas você está ouvindo.

  1. Observação X Confissão

No diário, conforme a prática de Virginia Woolf, devemos focar em observar a si mesmo e ao mundo ao invés de apenas se confessar, escrever sobre seus sentimentos. Recorrer mais aos sentidos, a sensações sensoriais (ficou estranho, né?) Por exemplo: descrever a luz do sol durante a golden hour e como você se sente ao contemplar essa imagem. Qual a sensação que a luz do sol causa em você, nos seus olhos, na sua pele.

  1. Escrever rapidamente

No primeiro tópico, falei que, seguindo a maneira como Woolf escreveu em seu diário, devemos escrever sem expectativas literárias. Escrever sem pensar muito, economizando palavras para escrever mais rápido. Recorrer a símbolos, abreviações, não se preocupar com organização, precisão das palavras, perfeição gramatical. Esse tipo de preocupação trava, bloqueia a escrita.

  1. refletir sobre a própria escrita

Use o espaço do diário para escrever sobre a sua dificuldade para escrever. Virginia Woolf fazia isso e eu também faço.

  1. Fazer associações

Nosso pensamento não é linear. Ele é mais como um nó ou associações. Um pensamento leva a outro e assim por diante. Então, siga o fluxo que a sua mente te apresentar. Uma entrada pode se conectar a outra(s).

  1. Esteja aberto a pensar

O diário é uma ferramenta, um espaço para a gente conversar consigo mesmos. Faça perguntas, escreva sobre seus sentimentos, preocupações, pensamentos, desejos, sobre sua saúde, seus relacionamentos. Ele também era um espaço para testar sua escrita ficcional. Às vezes, ela desenhava a estrutura de um romance como Mrs. Dalloway (1925) ou Ao Farol (1927), por exemplo. Ela fazia muitas descrições da natureza e de pessoas. Isso ajudava na hora de criar personagens ou descrever um ambiente.


Trechos dos diários de Virginia Woolf


Recém-chegada do Pentecostes em Rodmell, & prestes a sair para ver Nessa & Angelica na Gordon Square; daí que o meu diário ficará prejudicado; sufocado pelo excesso de via. O que ficou por registrar entope a minha caneta. (p. 52)

por outro lado, sobre o que devo escrever aqui a não ser sobre a minha escrita? É estranho como a moralidade convencional sempre entra pelo meio. Não se deve falar de si mesmo etc.; deve-se evitar a vaidade etc. Mesmo na mais completa privacidade esses fantasmas deslizam entre mim & a página. Mas agora preciso interromper para ir ao correio… (p. 71)

Com frequencia sinto os diferentes aspectos da vida estilhaçando minha cabeça em pedacinhos. (p. 54)

Como eu rabisco!; & que serventia tudo isso terá na minha idade avançada, quando eu escrever minhas memórias? (Woolf, 2023, p. 68)


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Referências:

Woolf, Virginia. Os diários de Virginia Woolf: Diário III (1924-1930). Trad. Ana Carolina Mesquita. São Paulo: Editora Nos, 2023.



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