(Aviso de texto longo. Recomendo que você leia pelo computador já que o texto está longo. De preferência, com um café ou sua bebida favorita)
Desde pequena, pequena mesmo, eu gostava de escrever, mas tinha vergonha de ler o que escrevia. Lembro de experiências de leitura na sala de aula quando a professora pedia para me levantar e ler a minha redação. Eu morria de medo, vergonha, sei lá. Esse sentimento me acompanhou durante toda a vida. Parei de escrever. Queria escrever um diário, ter uma agenda, como as que eu via na revista Capricho. Mas além do medo de que alguém pegasse o caderno para ler, eu tinha pena de escrever, sabe? Eu nem sabia o que se escreve num diário, numa agenda. Mas todo ano, quando chegava o mês de outubro, eu esperava ansiosamente para percorrer lojas como Americanas, Pernambucanas, entre outras, para escolher a minha agenda do ano seguinte. Eu sonhava com as da Capricho, mas eram mais caras do que aquelas executivas. Na época da escola, também não dava para comprar os cadernos com capas bonitas. O que eu fazia: criava uma nova capa com colagens ou apenas colocava uma foto das minhas bandas e/ou cantores favoritos. Já no segundo grau, fiz uma mochila com jeans velho. Meu pai levou a mochila no Taboão (um local que fica no centro histórico de Salvador, onde há pessoas que trabalham com costura). Depois, tudo isso desapareceu sem eu perceber.

Terminei a escola e de cara comecei a trabalhar. Comecei a ler livros espíritas (os únicos que chegavam até mim). Lá pelos anos de 2010, trabalhei como secretária de um fotógrafo e tive acesso à internet e pude comprar meu primeiro computador, embora já tivesse acesso a um computador das irmãs de meu marido. Me lembro de um dia em especial. Minha filha nasceu em 2006. Nessa época, nossa casa ainda não estava (e ainda não está pronta). Minha sogra nos colocou na cama dela logo que chegamos da maternidade. Durante a noite, minha cunhada navegava na internet (discada) para acessar Orkut e depois Facebook. Comecei a pensar em fazer faculdade. Por trabalhar durante mais ou menos 10 anos na área administrativa, de cara tentei administração. Não levei adiante. Eu havia trabalhado numa agência de propaganda. Lá descobri que na criação existe o trabalho de redator. Eu acho que foi aí que começou o sonho de fazer jornalismo. Na minha cabeça, escritor era jornalista. Como eu queria ser escritora, eu queria me inscrever em jornalismo. Foram anos de idas e vindas. Conheci o marketing. Eu amo estudar marketing. Depois foi o marketing digital. Por fim, conheci Letras e decidi cursar Letras-Inglês e consegui, finalmente, me formar (não esqueci do jornalismo e nem do marketing, mas isso é papo para outro texto). Achei que leria muitos livros de literatura inglesa, minha paixão, mas quem disse? Tudo muito superficial. Meu curso era licenciatura, mas tinha um foco em tradução (tivemos 03 semestres).
Bom, eu quis fazer tudo o que a faculdade me oferecia. Entrei em um grupo de pesquisa, apresentei trabalhos nos eventos da faculdade do tipo semana de Letras e SEMOC (Semana de Mobilização Científica). A professora que coordenava o grupo de pesquisa, criou um centro de escrita acadêmica. Eu enxerguei ali uma oportunidade. Fiz todos os cursos e oficinas. Uma das oficinas foi realizada na editora da faculdade. Eu e mais um rapaz, voluntariamente, fomos treinados e trabalhamos na preparação de textos que seriam publicados pela editora.
Quando terminei a licenciatura, quis emendar o mestrado. Já tinha ouvido falar do Pós-Crítica da UNEB (Universidade do Estado Da Bahia), em Alagoinhas. Pensei: ir estudar lá seria uma forma de sair de Salvador. Fiz um semestre como aluna especial. Passei tanto perrengue que você não tem noção (mas isso também é conversa para outro dia. Me cobre!) Era puxado e meu marido não estava disposto a se mudar. Ficar indo e voltando era dispendioso e cansativo. Continuei frequentando o grupo de pesquisa. Aí veio a pandemia.
Esqueci de comentar que desde que entrei em Letras, mantive um blog onde eu postava resenhas de livros que lia. Mas esse não foi o meu primeiro blog. Antes, tive alguns nos quais escrevia sobre marketing e os eventos que aconteciam em salvador. Outra coisa que não mencionei foi que no último semestre, época de escrever e defender o TCC (Trabalho de conclusão de curso), além de escrever o meu e ajudar um colega, escrevi mais ou menos uns 05 TCC's ao mesmo tempo. Ainda fazia as oficinas, estava no grupo de pesquisa, apresentava trabalhos, lia muito, assistia séries, dava aula em escola e fiz os estágios curriculares. Como dei conta, não sei. Acho que a conta chegou há uns dois, três anos (outro assunto para o futuro).
O ponto que quero chegar é que embora eu quisesse muito (e ainda quero) escrever. Comecei com o blog de resenhas literárias, usando um nome que não me identificasse. Enquanto isso, estudava marketing digital. Consegui bons resultados (para mim) com o blog, mas chega um momento em que você precisa investir dinheiro e tempo para se capacitar. Tempo eu até conseguiria arrumar, mas a grana nunca sobrava para fazer esse investimento (tínhamos 03 crianças em casa). Mesmo assim, vi uma publicação no Instagram de uma moça que precisava de redator web. Me candidatei. Meu blog foi o meu portfólio. Passei quase dois anos escrevendo loucamente para o site de outras pessoas e empresas, ganhando praticamente R$ 0,01 por palavra. Trabalhava de domingo a domingo. Acordava às 07 e só sai da tela quando já não suportava mais. Apesar dessa rotina puxada, eu sentia prazer com aquilo porque, finalmente, eu estava fazendo o que queria fazer, isto é, escrever. Mas tive que ir largando aos poucos.
Entrei num limbo. Durante a pandemia, cheguei a fazer uma seleção para aluno regular do PPGLitCult (Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura da UFBA). Fiquei sabendo nos 45 do 2º tempo. A prova foi via e-mail. Lembro de um texto (ou livro) da Judith Butler que me aterrorizou. Fiz a prova porque tinha pago porque sabia que não iria passar. Ainda assim, tirei 5. Acho que foi uma boa nota para quem não estudou.
Acho que foi em 2023 que decidi me reaproximar da universidade. Fiz uma disciplina como aluna especial no PPGLitCult. Comecei a pensar sobre o que pesquisar. No final daquele ano, participei de um evento sobre Roland Barthes e a forma como as professoras falavam dele, com admiração e amor, me tocou. No final do primeiro dia de evento, no final do evento, fui ao banheiro antes de vir para casa. Quando saí do reservado, uma das professoras estava lá, me reconheceu e puxou papo. Ela falou em Crítica Genética, porque eu disse que pensava em trabalhar com diário. Ela me falou do programa ao qual ela é vinculada na USP e disse: “por que você não vem pro nosso programa? Temos uma linha forte em Crítica Genética.”. Por mim, eu teria ido com ela, mas não sou só no mundo. Mas um dia, irei. No início de 2024, me inscrevi em mais duas disciplinas como aluna especial. Ao mesmo tempo em que cursava as disciplinas, estava participando do processo seletivo para aluno regular com ingresso em 2024.2. Tudo deu certo (mais ou menos. mais um papo que vou adiar).
Tudo isso para dizer que, apesar de querer ser escritora, de ser paga para escrever, nunca priorizei de fato esse projeto. Nunca consegui escrever todos os dias nos meus blogs, ou perfil do Instagram. Já entendi que quem vence nesse jogo não é quem persiste, mas quem insiste. Vários motivos, hoje, me fazem desistir de insistir dia após dia. Mas este ano, mesmo tendo que escrever uma dissertação praticamente do nada, vou insistir no meu projeto pessoal. Penso que se conseguir me disciplinar a escrever para o blog todos os dias, será mais fácil sentar para escrever a dissertação. E o tal do empilhamento de hábito do qual James Clear fala em Hábitos atômicos, eu acho.
Enfim, esse texto já está enorme, cheio de temas para outros textos. Por hoje, eu venci. Se você chegou até aqui, deixe um comentário, mesmo que seja um emoji. Obrigada por ler!
OBS: Este texto pode ter links de afiliado. Ao clicar nesses links e comprar qualquer produto através deles, eu recebo uma pequena (pequena mesmo) comissão que me incentiva a continuar separando um tempo da minha rotina para me dedicar à escrita. Muito obrigada!
P. S. - Você também pode incentivar o meu trabalho pagando um cafezinho para mim. O PIX é eualecosta@gmail.com. Mais uma vez, muito obrigada!